domingo, 13 de junho de 2010

Enecult – Uma reflexão que vai além dos muros da universidade

Blog Acesso - Priscila Fernandes e Luíza Costa

Em A universidade do século XXI. Para uma universidade nova, Boaventura de Sousa Santos, diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, fala da necessidade de criação de um novo contrato social para a universidade, que deveria ser considerada como um “bem público”, articulando ensino, pesquisa e extensão. Para ele, o modelo universitário atual estaria mais próximo de uma “virtrine institucional” do que de um fomentador e mediador entre conhecimento, informação e sociedade, o que deslocaria a sua responsabilidade do eixo social e político para o econômico e até comercial. No Brasil, verificamos que o esgarçamento dos pólos de ensino acabou se ampliando na década de 90, com a conversão da universidade em prestadora de serviços, configurada pela abertura dos domínios da educação, antes de responsabilidade exclusiva do Estado e agora distribuída por entidades privadas. Com isso, vemos o diálogo entre academia e sociedade ganhar um novo interlocutor, o mercado, o que faz com que a pesquisa passe a ser encarada muito mais sob a ótica operacional do que social ou política.

Na contramão desse movimento, conscientes de seus papéis de formadores, fomentadores e debatedores da realidade, bem como de propositores de novas práticas e conceitos, algumas universidades vêm buscando intensificar o envolvimento com a sociedade a sua volta, desconstruindo muros e barreiras e propondo diálogos que, cada vez mais, trazem a comunidade para o espaço do saber. Na área cultural, talvez o mais notório desses casos seja o da Universidade Federal da Bahia , que tomou a dianteira como geradora de reflexões para o setor, com a fundação do Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura – Cult, responsável, entre outras atividades pelo Enecult – Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, evento anual aberto ao público que reúne os principais expoentes do campo cultural latino-americano.

Iniciado em 2004, o Enecult acaba de passar por sua sexta edição, que aconteceu entre os dias 25 e 27 de maio, em Salvador, na Faculdade de Comunicação – FACOM da Universidade Federal da Bahia. Na ocasião, a equipe do blog Acesso esteve presente para a cobertura dos principais debates, que você lerá na série que tem início com esta matéria.

Além das apresentações de trabalhos, comuns a eventos acadêmicos, o VI Enecult debateu os diversos ângulos da cultura contemporânea, trazendo à tona questões como políticas públicas do governo Lula, cultura digital, regionalidades e movimentos urbanos. Em um contexto globalizado, o evento ainda tratou da cooperação cultural internacional, em uma palestra ministrada pelo espanhol Fernando Vicário, diretor de cultura para a Organização dos Estados Iberoamericanos – OEI; e das configurações do espaço cultural latino-americano contemporâneo, em uma mesa-redonda que teve como debatedores o pesquisador da Universidad Mayor de San Andrés. (La Paz, Bolívia), Guillermo Mariaca; a socióloga argentina, pesquisadora do Instituto Gino Germani, Ana Wortman; e a Diretora Geral do Gabinete da Secretaria Nacional de Cultura do Paraguai, Rocío Ortega. Ao todo, foram realizadas 80 mesas redondas e 300 comunicações de trabalhos de pesquisadores e estudantes de diversas regiões do Brasil e de países da América Latina.

Se, hoje, o Enecult é considerado uma referência para o estudo da cultura no Brasil e na América Latina, isso é resultado de muito trabalho e avaliação. Segundo o vice-coordenador do Cult, Leandro Colling, nos seis anos de existência do evento, diversas questões foram repensadas e ajustadas. “Os primeiros encontros eram bem pequenos e o número de trabalhos apresentados não passava de 50”, comenta. Hoje, o Enecult recebe, anualmente, mais de mil trabalhos, enviados de toda a América Latina, que são selecionados por uma comissão científica, formada por pesquisadores brasileiros – este ano foram apresentados 330 artigos. “Acredito que esses não sejam apenas dados quantitativos, mas também qualitativos. A entrada da Comissão qualificou e legitimou as apresentações de trabalhos do Enecult”, diz o vice-coordenador do Cult.

Uma das novidades da VI edição, a Programação Paralela foi fruto, justamente, das avaliações pós-encontro, organizadas pelos produtores do evento. Destinada a ampliar o contato com a comunidade, a programação que aconteceu nos dias do Encontro, sempre após os debates, foi responsável pelo lançamento de 17 livros; pela exibição do documentário Adonde va el público, de autoria de Ana Wortman, sobre o público de cinema em Buenos Aires; pela apresentação da peça O melhor do homem, dirigida por Djalma Thürler, com texto de Carlota Zimmerman; e pela organização da mostra Território(s) de particularidades, com curadoria de Eliane Chaud e Viviane Fontes . Além de alinhar as pontas da cultura – o pensar e o fazer cultural, a programação atuou para a democratização do acesso, uma vez que os eventos, além de abertos ao público, eram gratuitos.

Cult – entre o pensar e o fazer

Além do Enecult, o Cult é responsável por outros projetos, que atraem pesquisadores de áreas e formações diversas. Fundado em 2003, o Centro de Estudos tinha um movimento interno que demandava uma iniciativa que fosse além do pensar a produção cultural. “No grupo criador estavam reunidos docentes, pesquisadores e alunos, envolvidos no processo de pensar a cultura e a comunicação contemporâneas e não só no fazer”, explica Colling. Por esse motivo é que, na hierarquia da FACOM, o Cult atua como um orgão complementar dentro do Centro de Ensino e Extensão, tendo como principal responsabilidade a concepção de ações e espaços nos quais a reflexão sobre a cultura seja o estandarte.

Dentre as iniciativas desenvolvidas sob a coordenadoria da professora Lindinalva Rubim, à frente da FACOM, estão as pesquisas multidisciplinares; o acompanhamento crítico da cultura na Bahia, no Brasil e no mundo; a construção e o fomento de uma rede de pesquisadores inclinados à cultura; a organização de um acervo e banco de dados sobre o tema; e a luta por políticas democráticas no âmbito da cultura.

Existem ainda, dentro do Cult, ações de demanda externa que geram parcerias com iniciativas públicas e privadas. “Ano passado, a Secretaria de Cultura do Estado criou um projeto de atualização de gestores das Universidades Estaduais da Bahia e quem promoveu e ministrou esse curso foram os professores do Cult”, conta Renata Rocha, pesquisadora do Cult e uma das organizadoras do Enecult.

E não para por aí. Na busca por qualificar a área da produção intelectual da cultura, foi criado o Programa de Pós-graduação Multidisciplinar em Cultura e Sociedade e o Instituto de Humanidades Artes e Ciências – IHAC, que tem coordenação do professor Albino Rubim – que falou com exclusividade ao Acesso, em entrevista que você lerá em breve. Há ainda a intenção de ampliar a atuação do Centro a fim de aumentar a quantidade e a qualidade de seus produtos culturais. Como disse o professor Colling, “o Cult tem de ir além da graduação, da Pós e do Mestrado. Ele é e deve ser um ambiente que proporcione a extensão do ensino”, o que parece muito alinhado com a proposição do especialista português Boaventura de Sousa Santos quando fala da universidade como “bem público”.

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